segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Sobre contratos, desapego e pessoas



Para ler ouvindo:






Uma das lições mais difíceis que o ser humano pode aprender está resumida a uma palavra: desapego. Passamos a vida nos agarrando a coisas, a pessoas, a lugares, a sensações, como se tudo nos pertencesse. É como se tivéssemos feito um contrato silencioso com o universo sem nos darmos conta de que tudo que dizemos ter, na verdade, foi emprestado.   

Alguns empréstimos são de curta validade, como aquela paixonite inesquecível que durou três semanas ou aqueles amigos do ensino médio que você jurou que manteria por perto, mas que a vida não permitiu esse luxo. Se dermos muita sorte, conseguimos alguns contratos vitalícios: manteremos a família por perto apesar dos desentendimentos, continuaremos contando com o melhor amigo de infância/adolescência mesmo quando a vida resolve mandar a pessoa para o Japão por alguns anos ou até mesmo encontraremos alguém que nos ame não apesar dos defeitos, mas exatamente pelas nossas peculiaridades ou esquisitices. Nesses casos, é sempre bom rever as cláusulas de tempos em tempos só para ter certeza de que as duas partes ainda querem as mesmas coisas.

Acho que os dois tipos de contratos podem ser bons dependendo daquilo que precisamos no momento, podemos encontrar a pessoa perfeita para dividir o resto da vida numa fase em que tudo o que queremos é alguém que nos divirta naquela noite e só. Da mesma forma que criamos expectativas gigantescas sobre pessoas que sabemos que, no fundo, não passarão de contratos de curto prazo ou que querem um outro tipo de contrato, como seria o caso do “eu não quero nada sério” ou do “vamos ser apenas amigos”. Isso não torna a outra pessoa ruim, como muitas vezes gostamos de acreditar para nos sentirmos melhor com a situação, ela só procura algo diferente, o que é perfeitamente normal e compreensível. O importante nesses casos é saber avaliar se vale a pena tentar adaptar as nossas expectativas à realidade, mesmo que isso machuque, e tentar firmar um novo contrato que satisfaça as duas partes de certa forma, numa espécie de meio termo, o que pode ser uma boa alternativa, pois algumas pessoas valem o esforço.

Muitas vezes não conseguimos adaptar o contrato à nossa situação ou simplesmente ignoramos as letrinhas pequenas e, quando descobrimos tudo o que está envolvido no contrato, não vemos outra alternativa a não ser quebrá-lo. É aí que o pesadelo começa, principalmente quando acreditávamos que se tratava de um contrato vitalício, que teríamos aquela pessoa ao nosso lado para sempre e isso vale para todos os campos da vida: amores, amigos, parceiros de profissão. Podemos ler todos os livros de autoajuda já escritos, ouvir conselhos de vários amigos, comer todos os potes de sorvete do mundo e nada disso tornará o processo de rompimento uma coisa fácil. Por mais que saibamos que o conceito de “para sempre” é uma coisa ridícula se pensarmos no pouco tempo que temos no mundo, nós nos apegamos, amamos, acreditamos, quebramos a cara, mas no fim das contas ficamos bem, pois temos contratos com várias outras pessoas que fazem tudo valer a pena e que farão questão de nos lembrar de que a prática do desapego não só faz parte da vida, mas também é essencial para que tenhamos espaço para o novo e possamos recomeçar.

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